
A cadeira da realizadora: dos lugares inacessíveis na História da Arte, em Portugal
Falar da História do Cinema, em Portugal, é falar da História de uma arte que se desenvolve a cada ano, por todos os avanços técnicos e correntes estéticas que foram alterando e influenciando o seu desenvolvimento. Em Portugal, como em muitos países europeus, falar de História do Cinema é também falar do contexto político e de um período ditatorial que se prolonga por 48 anos, marcando todas as narrativas e imagens produzidas nesse tempo.
Estudar cinema português, de uma perspectiva autoral de género, e reflectir sobre quem são as mulheres que filmaram/filmam em Portugal é o principal objectivo desta apresentação, promovendo, desse modo, um olhar panorâmico sobre mais de um século de História. Em termos metodológicos, privilegia-se uma abordagem sociológica e quantitativa. Concentrar-nos-emos na identificação de mulheres que realizaram ficções de longa-metragem, em Portugal, pela conjugação de dois factores: a noção generalizada de um maior número de cineastas dedicadas ao documentário (género mais acessível em termos financeiros e de gestão de equipas menores), o que transforma a ficção num exercício disruptivo; e a própria importância da representatividade da mulher quando filmada por outras mulheres.
Ao centrarmos o nosso estudo em filmes realizados por mulheres, buscamos mais do que a arquetípica sensibilidade, composta por elementos místicos e uma essência indefinida. O que procuramos identificar é a partilha de uma vivência comum e/ou a denúncia da perpetuação de determinadas desigualdades de género. Nesse sentido, estudar mulheres-cineastas ultrapassa a canonização de traços identitários excludentes, estereotipados e socialmente rígidos, pressupondo, ao invés, a identificação de possíveis trocas de experiências (conceito recorrente nos estudos feministas por englobar, em si, subjectividade, sexualidade, corpo, educação e política), bem como a partilha de uma estrutura prático-inerte comum a todas as mulheres, que poderão, ou não, definir-se dessa forma.
Nota biográfica:
Ana Catarina Pereira é docente na Universidade da Beira Interior e doutorada em Ciências da Comunicação, na vertente Cinema e Multimedia, pela mesma universidade. É representante da Faculdade de Artes e Letras na Comissão para Igualdade da UBI e investigadora do centro LabCom. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Salamanca.
É autora dos livros A Mulher-Cineasta: Da arte pela arte a uma estética da diferenciação (2016) e do Estudo do Tecido Operário Têxtil da Cova da Beira (2007). Co-organizou as obras Cinema e Outras Artes (I e II) (2019); Filmes (Ir)refletidos (2018); e Geração Invisível: Os novos cineastas portugueses (2013), entre outras. É autora de diversos artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais. Já deu diversas conferências, acções de formação, workshops e masterclasses em Brasil, Espanha, Inglaterra e Suécia, entre outros países. Entre 2017 e 2019 foi directora do curso de Ciências da Cultura, da UBI.
Trabalhou vários anos como jornalista. Foi co-fundadora e directora da revista online Magnética Magazine e colaborou com as publicações Notícias Sábado e Notícias Magazine (Diário de Notícias), jornal I, revista Focus, entre outras. É regularmente convidada para ser júri de festivais ou fazer curadoria de exposições e ciclos de cinema. Sendo uma das fundadoras da Conferência Internacional de Cinema e Outras Artes, realizada anualmente, na Universidade da Beira Interior, é também coordenadora do GT de Estudos Fílmicos da SOPCOM.
Os seus interesses de investigação incidem em estudos feministas, estudos fílmicos, estudos culturais, pedagogia nas artes, cinema português e outras cinematografias minoritárias. Gere o site Universal Concreto, com informação actualizada sobre o seu trabalho: https://www.universalconcreto.org/

