A liberdade está a passar por aqui (por Margarida Pereira)
No dia 25 de abril de 1974 eu tinha sete anos e ouvi a palavra Revolução pela primeira vez. Logo pela manhã foi uma das primeiras palavras que ouvi nesse dia, quando a minha Tia, ouvido colado ao rádio, me dizia muito empolgada, “Houve uma revolução em Lisboa”. Ao que eu respondi com a pergunta que se impunha, “O que é uma revolução?”. Ela lá me explicou, penso, que os militares estavam a derrubar a ditadura. Toda uma aprendizagem política. Fiquei a saber que vivíamos numa ditadura, que isso era horrível, que havia algo de empolgante a acontecer que iria mudar as nossas vidas. A minha aprendizagem da palavra revolução estava assim indissociavelmente ligada a um momento que era bom, que era fantástico e que foi acolhido lá em casa com a alegria que se iria alastrar pelas semanas e meses seguintes. A euforia desses dias ficou indelevelmente marcada na minha memória do 25 de Abril: as manifestações de rua, as palavras de ordem – “o Povo unido jamais será vencido” – a exaltação das vozes. Na verdade, parecia que todos queriam (precisavam) de falar ao mesmo tempo, como as crianças. Foi um momento de alegria coletiva, não há dúvida, de que bem me lembro. Aprendi outras palavras boas nesses dias, mas a mais presente, a mais marcante foi certamente a palavra Liberdade. Era uma palavra omnipresente nesses dias, como fica claro em algumas das canções que passamos a ouvir, como estas do Sérgio Godinho.
(3) Sérgio Godinho – Liberdade (ao vivo) – YouTube
(3) J.M.Branco,S.Godinho e Fausto-Maré alta.wmv – YouTube
Margarida Pereira
Vieira da Silva
Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Mulheres de Abril” de Maria Teresa Horta
Mulheres de Abril
somos
mãos unidas
certeza já acesa
em todas
nós
Juntas formamos
fileiras
decididas
ninguém calará
a nossa
voz
Mulheres de Abril
somos
mãos unidas
na construção
operária
do país
Nos ventres férteis
a vontade
erguida
de um Portugal
que o povo
quis
Mulheres de Abril, Maria Teresa Horta em Poesia Reunida, p. 450
Ana Hatherly – As Ruas de Lisboa
1977 Platex e Papel Colagem Inv. 91P744
Obra da colecção da Fundação Calouste Gulbenkian




